terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


Capítulo Quatro: Esperança
Carlos está na varanda da casa, observando a rua infestada de zumbis. Pelo fato de não terem colocado algum cadáver podre na frente do portão, os zumbis estão tentando entrar, pois sabem que há pessoas vivas dentro. Mariana vai até Carlos, põe a mão no ombro direito dele e se escora no parapente, olhando a multidão de cadáveres ambulantes que está tentando entrar em sua casa.
- no que tá pensando? – pergunta ela.
- só pensando em como vamos sair daqui e chegar ao porto – fala ele.
- pegamos alguns suprimentos, algumas armas, alguns carros e mataremos tudo que cruzar nosso caminho, simples – fala ela.
- não, nada é simples – fala ele – temos que levar em consideração o fato de que nem todos estão dispostos a detonar o cérebro de um zumbi, seja por alguma espécie de sentimento de humanidade devido ao fato do zumbi ter sido uma pessoa antes de se tornar um canibal enlouquecido, ou seja por fraqueza física e/ou psicológica.
- hum...você complica o que é simples – fala ela.
- não, eu só tento olhar de outros ângulos – fala ele.
- o que você quer fazer? – pergunta ela.
- eu tô pirando aqui – fala ele entrando na sala em que estão Gabriel e Alice assistindo filmes – eu tô indo limpar a entrada pra relaxar um pouco, você vem Mariana?
- relaxar? Enfrentar uma horda de zumbis é relaxar? – pergunta ela – você tá doido?
- todos ficamos doidos algumas vezes – fala ele – você vem ou não?
- claro, já que se você for sozinho vai acabar morto – fala ela.
Gabriel olha para Carlos logo após ter escutado a conversa.
- mah tu tem certeza que quer enfrentar uma multidão de zumbis á noite? – pergunta Gabriel.
- é divertido, é educativo, é terapêutico, então por que não? – fala Carlos.
- você quer se matar e matar á todos nós? – fala Alice – abrir aquele portão vai fazer com que os zumbis entrem e nos matem.
- não se a gente matar eles primeiro – fala Mariana.
- eles são vários e nós somos poucos – fala Alice.
- número não impediu a vitória do coronel Arthur Wellesley, o duque de Wellington, sobre Napoleão Bonaparte na batalha de Waterloo, impediu? – fala Carlos enquanto anda até o centro da sala – pense na comparação: Napoleão tinha muitos soldados, da mesma forma são os zumbis, estão em maior número, e o coronel Wellesley tinha menos homens, assim como nós, mas Wellesley não deu a mínima para isso; ele sabia que a única coisa que importava era a estratégia que deveria ser tomada; essa situação se aplica á nossa.
- aonde você quer chegar com isso? – pergunta Gabriel.
- essa casa é Waterloo, os zumbis são o exército de Napoleão e nós somos o exército de Wellesley – fala Carlos – nós temos menos homens, mas temos algo que eles não têm; temos raciocínio desenvolvido, logo, se fizermos uma armadilha boa, eles vão cair feito patinhos, e se tivermos cuidado, poderemos limpar essa rua sem que qualquer um de nós seja mordido.
- como você faria isso? – pergunta Mariana.
- colocaria um grupo de guarda e outro de ataque – fala Carlos.
- pode funcionar – fala Gabriel – é só escolher o pessoal certo; no caso dos atiradores, eu e mais alguns.
- tua humildade é uma coisa assustadora – fala Mariana.
- só temos um problema – fala Carlos – eu aposto que nem todos são bons de tiro, mas são bons espancando, então alguns irão com armas brancas.
- você fala como se fosse fácil – fala Alice.
- Alice, não é preciso muita coisa pra matar um desses bichos, é só acertar na cabeça e ver se o cérebro tá danificado suficiente – fala Carlos – além do que, serão 12 pessoas né?
- enfim, já tá decidido, e vamos logo nos preparar pro combate – fala Gabriel.
Gabriel e Alice se levantam do sofá e descem para o primeiro piso, onde se encontram com Bruno, Lucas, Medeiros, Bruna e José.
- pessoal, o Carlos decidiu que a gente vai limpar a entrada da casa – fala Gabriel.
- quando? – pergunta Bruno.
- agora – fala Alice.
- á noite?! Ele tá fumando maconha é? – fala Medeiros.
- cara, como ele deve ter pensado que essa multidão de zumbis não vai demorar muito tempo pra derrubar os portões – fala Gabriel – então, é melhor fazermos isso enquanto temos chance.
- o Gabriel tá certo – fala Bruna – é bem mais fácil lutar enquanto dá pra se movimentar, se eles entrarem aqui, estaremos num espaço minúsculo, vamos tropeçar uns nos outros e acabaremos mortos na melhor das hipóteses.
- porra... tá certo, vamos com tudo pra cima deles – fala Lucas.
- ótimo – fala Gabriel – Lucas, Medeiros e José, vocês serão atiradores e vão ficar no piso superior pra dar cobertura pra gente.
- mirem na cabeça – fala Bruna.
Carlos e Mariana estão no segundo andar, falando com os demais.
- muito bem, Marcelo, tu é bom de tiro, então tu dá cobertura – fala Carlos – Ítalo, Matheus, corpo-a-corpo. Fernanda e Saul, vocês... Vocês fiquem de olho na porta.
- por que a gente vai ficar de olho na porta? – pergunta Fernanda.
- você consegue correr e acertar alguém na cabeça sem se cansar? – pergunta Mariana – consegue acertar um cara na cabeça á uma distância de uns 10 metros?
- se for a tua cabeça eu consigo – fala Fernanda.
Mariana fecha a mão formando um punho e começa a andar em direção á Fernanda; Carlos percebe o que vai acontecer e fica na frente de Mariana, impedindo-a de passar.
- segura a onda aí – fala Carlos.
- relaxa, eu só quero cumprimentar ela – fala Mariana.
- ah... você quer cumprimentar alguém? Então cumprimenta seus vizinhos lá fora – fala Carlos enquanto empurra Mariana para trás – cada um de nós, vivo e inteiro, são 2 braços e 2 pernas á mais, seja no combate ou em atividades secundárias.     
- tá certo, mas depois eu e ela vamos acertar isso – fala Mariana.
- cai dentro – fala Fernanda.
Carlos se afasta um pouco do grupo, andando em direção ao sofá, onde ele pôs seu equipamento. Ele veste seu casaco, prende as machetes no cinto da calça, fecha o zíper do casaco e desce as escadas, onde se reúne com o resto do grupo.
- muito bem, temos 10 armas de paintball, 6 machetes, temos 2 machados de lenhador, 7 punhais, 15 facas de açougueiro, quase 600 bilas, 4 martelos, vários pregos, uma escopeta calibre 12, de 2 canos, e 16 balas calibre 12, 2 pistolas 45 de airsoft – fala José.
- meu arco, 2 bestas e 60 flechas – fala Gabriel.
- qual o plano? – pergunta Felipe.
- eu pensei no seguinte: 6 protegem Waterloo, e 6 combatem direto os zumbis – fala Carlos.
- Waterloo? – pergunta Ítalo.
- é a casa – fala Carlos – é que eu fiz uma comparação com a vitória do general Wellesley, mas eu explico isso depois.
- eu vou defender – fala Gabriel.
- eu e o Matheus vamos atacar – fala Ítalo.
- eu e o Medeiros vamos ao combate – fala Lucas.
- ótimo, então equipe de ataque: eu, Lucas, Medeiros, Alice, Matheus e Ítalo. Equipe de defesa: Mariana, Gabriel, Bruno, Marcelo, Bruna e Felipe. Saul e Fernanda ficam com os serviços domésticos e médicos.
- por que eu vou ficar no ataque? – pergunta Alice.
- por que a Mariana tá com um corte na mão, logo, tem mais chances de ser infectada, assim como eu e o Gabriel – fala Carlos.
- por isso vocês evitam usar armas corpo-a-corpo né? – fala Bruna.
- escolham suas armas – fala Carlos.
Lucas pega uma arma de Paintball e um punhal, Medeiros pega uma besta e uma machete, Alice pega uma arma de paintball e uma machete, Ítalo pega um machado, Mariana pega duas machetes, Gabriel pega o arco e uma faca, Bruno pega um machado, Marcelo pega uma arma de paintball, Bruna pega uma arma de paintball e um punhal, Felipe pega a escopeta e uma faca de açougueiro, Carlos pega uma pistola de airsoft e 2 machetes e José pega a outra pistola de airsoft e uma faca de açougueiro. A equipe de ataque vai para a porta, fica de frente com o portão que barra a entrada da enorme horda de zumbis, a equipe de defesa fica no piso superior, mais especificamente na varanda que dá oferece uma vista perfeita para a horda, ajudando e muito a acertar a cabeça dos inimigos. Carlos é o primeiro a sair, seguido por Matheus, Medeiros, Lucas, Ítalo e por fim Alice, que fecha a porta assim que passa. O grupo de ataque se aproxima do portão.
- vamos matar os que estão perto do portão, e descemos a rua – fala Carlos.
O grupo começa a atirar, menos Matheus, Ítalo e Alice. Matheus não tem arma, Alice só aponta a arma para o portão. A cada 4 tiros, Carlos erra 2, Lucas erra 3, Medeiros erra 1. O número de zumbis diminui, agora devem ser um pouco mais de 25, talvez 30. Ítalo abre o portão e é o primeiro a sair, e consequentemente, é o primeiro a começar a matar os zumbis que estão espalhados pela rua. Ítalo acerta uma machadada bem no meio da testa do zumbi mais próximo; a carcaça deformada e ensanguentada cai no chão feito um saco de batatas; Ítalo põe o pé no rosto do zumbi e puxa o machado. Matheus passa correndo por Ítalo, e usando a velocidade do corpo e sua força, acerta um chute na cabeça de um zumbi que ia em direção á Ítalo; o zumbi cai no chão, e quando tenta se levantar, Matheus segura no maxilar com a mão esquerda e segura atrás da cabeça com a mão direita, e quebra o pescoço da criatura, que para de movimentar o corpo e passa a movimentar somente o maxilar, enquanto tenta morder algo. Medeiros passa pelo portão cautelosamente e começa a atirar nos zumbis que estão á uns 15 metros da casa, o primeiro leva uma flechada no olho esquerdo, o segundo leva uma flechada na testa, e o terceiro leva uma flechada na boca. Lucas passa pelo portão e vira á esquerda, atirando nos zumbis vindos dos arredores; mas quando ele mata os 2 primeiros, ambos com tiros na cabeça, um vem por trás e o agarra, Lucas tenta se afastar mas o zumbi o segura com muita força, ele faz o possível pra evitar a mordida.
- Merda, merda, merda! – grita Lucas enquanto tenta se livrar do zumbi.
Medeiros escuta o grito de Lucas, e no exato momento, ele se vira para trás e acerta uma flechada na cabeça do zumbi; a flecha atravessa o crâneo e fica extremamente próxima do rosto de Lucas; o zumbi o solta e cai no chão, Lucas se vira para Medeiros e faz um sinal de “ok”, pega sua arma e volta a atirar nos zumbis. Carlos passa pelo portão e segue em linha reta, atirando nos zumbis que se aproximam lentamente e dando apoio á Medeiros. Alice passa pelo portão lentamente e anda até o meio da rua; ela vê Lucas atirando nos zumbis, vê Ítalo abrindo crâneos com um machado, vê Matheus quebrando pescoços com suas mãos, vê Medeiros atirando nos zumbis com sua besta, vê Carlos ajudando Medeiros com uma arma de airsoft. Ela começa a voltar para a casa, mas assim que ela passa pelo portão, um zumbi que vinha do sentido leste a agarra; ela solta um grito bem alto e cai no chão; ela enfia o cano da arma de paintball na boca da criatura e fica empurrando, enquanto a criatura tenta se aproximar. Gabriel vê a cena e acerta uma flechada na cabeça do zumbi, que estava sobre Alice. Outro zumbi, vindo da mesma direção do que agarrou Alice, passa pelo portão da casa. Carlos, que havia escutado o grito de Alice, retorna para a casa, ele mata os zumbis vindos do leste, todos com tiros na cabeça. O zumbi que havia passado pelo portão passa por Alice e chega á porta da casa. Fernanda, que estava assistindo o conflito através da janela do quarto dos pais de Mariana e Felipe derruba um pequeno vaso na cabeça do zumbi; o vaso é destruído no impacto e o zumbi cai no chão. Mariana se aproxima da criatura, e ao se preparar para enfiar a lâmina da machete na cabeça dele, o zumbi rapidamente a agarra na pera direita e a derruba no chão; a machete cai longe, e a criatura tenta morder Mariana na perna. Carlos passa pelo portão, e aponta a pistola para a cabeça da criatura, mas ao apertar o gatilho, descobre que a arma está sem balas. Ele pega a arma de Alice e acerta um balaço na nuca do zumbi, que para de se mexer. Mariana se afasta do cadáver. Carlos ajuda a tirar o cadáver da criatura de cima de Alice, a ajuda a levantar e lhe entrega sua arma. Ele segue andando calmamente até Mariana. Assim que ele passa pelo cadáver, ele observa a expressão de Mariana, que o encara.
- você tá bem? – pergunta ele.
- estou, estou... – fala ela.
Ele estende a mão para ela, que segura à mão e se levanta. Carlos dá uma tapinha no braço esquerdo de Mariana e retorna para frente da casa. Alice está parada no portão, observando o cadáver do zumbi que a atacou.
- Alice, olhar pra eles não vai adiantar de nada, então ou você entra na casa e se protege, ou é melhor sair na rua e começar a mostrar serviço, ok? – fala Carlos enquanto passa por Alice.
Gabriel desce as escadas, passa por Mariana e vai até Alice.
- você quer que eu fique no seu lugar? – pergunta Gabriel.
- não, não... eu... eu consigo fazer isso – fala ela.
- beleza, mas se precisar de um tempo, se não tiver se adaptado, podemos trocar de equipe – fala Gabriel enquanto se escora no muro, do outro lado do portão.
Alice respira fundo, passa pelo portão e aponta a arma para um zumbi, que está á uns 12 metros na rua da direita. Ela aponta a arma, mas o dedo do gatilho não responde, não importa o quanto ela tente apertar o gatilho, o dedo não se mexe. Lucas, Medeiros, Ítalo, Matheus e Carlos observam Alice; só sobrou um zumbi de pé, os demais estão mortos ou inutilizados.
- Alice, atira logo nesse merdinha pra gente acabar logo com isso – fala Ítalo.
- mata logo ele – fala Medeiros.
- atira – fala Lucas.
- anda logo, Alice, acaba com o sofrimento dele de uma vez – fala Gabriel.
Na varanda, de frente para a rua, a equipe de defesa está observando Alice.
- ela não vai conseguir atirar – fala Bruna – eu a conheço.
- você aposta quanto como ela vai atirar? – pergunta José.
- eu aposto 50 paus como ela não vai atirar – fala Bruno.
- aposta aceita – fala José.
- eu entro nessa aposta também – fala Marcelo – ela não vai atirar.
- maravilha, ganhei 100 paus sem fazer nada – fala José.
- e você adora paus né? – fala Bruna.
- ó as ideia, mente poluída – fala José.
Na rua, o zumbi se aproxima cada vez mais. Carlos se aproxima, e se encosta-se a um poste, á uns 3 metros de Alice.
- esses malditos mataram seus amigos, seu namorado, sua família... Vão te matar se você não fizer nada – fala ele.
Alice não responde.
- ok, você não vai agir né? – fala Carlos enquanto se afasta do poste e começa a andar em direção á casa – alguém aí pode acabar com aquela coisa, por favor?
Matheus corre em direção ao zumbi, e ao chegar bem perto da criatura, ele acerta um chute no joelho do zumbi; o osso do joelho é quebrado e o zumbi cai no chão de bruços. Matheus rapidamente fica atrás do zumbi, põe a mão esquerda no maxilar, põe a mão direita atrás da cabeça do zumbi e quebra o pescoço da criatura. Carlos, Medeiros, Lucas, Ítalo e Matheus voltam para a casa. Alice fica parada na rua, observando o zumbi, mesmo com o pescoço quebrado, tenta morder alguma coisa. Gabriel se aproxima dela.
- o que houve? – pergunta ele.
- eu não consegui puxar o gatilho, foi como se... Meu dedo estivesse... Morto – fala ela.
- você não matou nenhuma dessas criaturas ainda né? – fala ele – a primeira vez é sempre a mais difícil, vai por mim; mas assim que você mata o primeiro, a dificuldade vai diminuindo no decorrer do tempo, acredite.
- espero que esteja certo – fala Alice.
- acredite, eu sempre estou certo, agora vamos, antes que mais dessas coisas apareçam e o Carlos faça a gente matar mais deles, vamos – fala ele.
Carlos vai até Mariana. Os outros entram na casa.
- como você está? – fala Carlos.
- eu estou bem – fala Mariana – valeu pela ajuda.
- então, como está sua mão? – fala ele.
- vai ficar boa – fala ela – e o seu corte?
- vou sobreviver – fala ele.
- como foi a... Diversão? – pergunta ela.
- foi boa, e foi frustrante ao mesmo tempo – fala ele.
- por quê? – pergunta ela.
- matar zumbis sempre foi; sempre é, e sempre vai ser divertido, e foi frustrante por que eu esperava que a Alice matasse o zumbi, coisa que ela não fez – fala ele – isso só serviu como outra confirmação de que eu espero demais das pessoas, o que é um erro, esperar que elas façam aquilo que você faria.
- sim, é um erro, mas matar é algo difícil – pergunta ela.
- só um detalhe – fala ele – essas coisas já estão mortas, logo, só estamos acabando com o sofrimento delas. Além do que, isso serviu como uma confirmação de que posso confiar em algumas pessoas, incluindo você.
- ah... Fico lisonjeada com o seu voto de confiança – fala ela.
- legal... Eh... Vou dar uma volta pela rua – fala ele – ver quais lugares possuem mantimentos e coisas do tipo.
- hum... Você não vai sair por aí agora – fala ela – é muito arriscado.
- acabamos de eliminar uma horda inteira – fala ele – andar pela rua e matar mais alguns não vai ser tão difícil.
- nem pensar – fala ela – pela manhã nós vamos.
- eu sou o líder, certo? Quer dizer, os meus planos funcionaram até agora, certo? – fala ele.
- não se esqueça de que seus planos mataram boa parte do grupo original – fala ela - e se continuar assim, vai matar o resto e á você mesmo.
- todos vão morrer um dia, então por que razão ou motivo aparente eu teria medo de algo que VAI acontecer mais cedo ou mais tarde? – fala ele.
- o que você tá querendo? – fala ela – você quer se matar? É isso? Então por que não pega a escopeta do Felipe, enfia o cano na boca e puxa o gatilho?
Mariana se afasta de Carlos e segue para seu quarto. Matheus está assistindo um anime no computador; um dos protagonistas do anime, uma moça de cabelos rosados, mata várias pessoas e fica sorrindo, ela se diverte com as várias mortes que causa. Matheus começa a sorrir. Felipe vai até Gabriel e Alice, que estão conversando na sala do primeiro piso.
- então, você lembra quando estávamos no shopping, e os zumbis entraram por uma das portas do piso térreo? – pergunta Gabriel.
- lembro, o Raphael e o Joanderson foram os primeiros a entrar em combate. Eu e a Bruna fomos para trás do grupo – fala Alice.
- lembra também de como o Angelo morreu? – pergunta Gabriel.
- sim, ele foi cercado por um grupo de zumbis. Comeram ele até os ossos – fala Alice.
- na verdade, ele foi mordido no ombro, aí ele veio pra cima de mim, gritando e pedindo ajuda – fala Gabriel – como você sabe, o sangue atrai os zumbis, certo? Tipo, o grupo quase todo tava morto ou sendo morto, aí eu empurrei o Angelo para trás, pros braços do zumbi mais próximo, aí os demais se juntaram e comeram ele, ai a gente conseguiu correr.
- você é um otário, sabia? Mas se bem que o Angelo merecia morrer daquele jeito – fala Alice – depois de uns 2, 3 anos dele torrando minha paciência, eu teria feito o mesmo.
Felipe se senta na poltrona, á esquerda de Gabriel, e observa os 2 conversando.
- quem não deveria ter morrido naquele lugar? – pergunta Gabriel.
- Raphael, Joanderson, Daniel, Alex... Só lembro-me desses – fala Alice – o Alex foi o primeiro a morrer, né? Um zumbi gordão caiu em cima dele, e os demais o cercaram; o Angelo foi inventar de usar um machado e acertou o Daniel no pescoço, que caiu no chão e virou mais uma vítima; o Raphael e o Joanderson, que provavelmente morreram lutando.
- gente que não deveria ter morrido morreu, e gente que deveria ter morrido também morreu – fala Gabriel.
- de que shopping vocês estão falando? – pergunta Felipe.
- esquece – responde Alice – falamos apenas de um lugar no qual passamos a primeira noite lá, ontem dormimos num bar, e aqui estamos.
- eu ouvi que vocês perderam amigos, como foi? – pergunta Felipe.
- nós acabamos de dizer – fala Alice.
- não, como vocês se sentiram no momento exato – fala Felipe.
- inúteis – fala Alice.
- fraco – fala Gabriel.
- eu... Matei minha namorada, matei meus amigos – fala Felipe, enquanto limpa uma pequena lágrima – eles haviam se transformado bem na minha frente, eu fiquei em pânico; estávamos nessa sala, eles estavam vindo em minha direção, eu pequei a arma, apontei para a cabeça do meu melhor amigo, e apertei o  gatilho da escopeta.
Felipe olha para o tapete manchado de sangue.
- a cabeça dele explodiu como se fosse uma melancia – fala Felipe – fiz a mesma coisa com os demais. Foi... Algo que nunca esperei fazer.
- eu sinto muito pelo que houve – fala Alice.
- todos nós perdemos pessoas importantes em nossas vidas, e graças á esse apocalipse – fala Gabriel – as pessoas que amávamos tentaram nos matar, e alguns de nós tiveram que mata-los.
Carlos vai até o quarto de Mariana, bate á porta. Alguns segundos depois Mariana abre a porta.
- o que você quer? – pergunta ela.
- você tem um celular ou ipod que possa me emprestar? – pergunta Carlos.
- tenho – fala ela.
Mariana se vira e anda até uma mesa no interior do quarto. Carlos observa uma pequena parte do quarto dela. Mariana volta para a porta e entrega o celular junto com os fones de ouvido e fecha a porta. Carlos põe os fones nos ouvidos, acessa a biblioteca musical do celular e procura alguma música que o agrade. Ele se vira e observa uma mesinha de centro, com algumas fotos em cima; ele se aproxima mais e observa as fotos de Mariana e de Felipe junto de seus pais. Carlos acha uma música que gosta, põe para tocar e canta alguns trechos enquanto começa a andar pela casa e a observar os demais.
- hey, hey, hey, hey, hey stoopid – canta Carlos enquanto anda pelo corredor – hey bro’, take it slow, you ain’t linvin in a vídeo... You’re flying low in a high velocity... No doubt, you’re stressing out... That ain’t what rock and roll’s about... Get off that one way trip down lonely street...  
Bruno, Bruna, Marcelo e José estão na varanda; Marcelo fica girando uma caneta nos dedos, José fica limpando sua arma de airsoft, Bruno fica observando a rua, Bruna fica jogando no celular. Lucas e Medeiros estão prestando atenção no que é dito na televisão, especialmente nos jornais. Medeiros, além de observar a televisão, observa em um mapa o caminho até o porto do Pecém, onde será a evacuação dos sobreviventes. Saul e Fernanda estão na cozinha, recolhendo mantimentos, facas, e outras coisas úteis. Fernanda pega tudo que comida enlatada: milho, feijão, carne, etc. Saul pega tudo possa ser usado contra os zumbis, como facas, garfos, etc. pouco tempo depois, a maioria dorme; alguns dormem na sala da televisão, outros dormem no quarto dos pais de Mariana e Felipe. Lucas, Medeiros e Bruno ficam de vigia. Algumas horas depois, ás 06h45min, Felipe acorda, e começa a acordar os demais. Mariana, assim que acorda, segue direto para o banheiro, e a primeira coisa que ela faz, é se olhar no espelho; e alguns segundos depois ela toma um banho. Alguns minutos depois, o grupo já está com o material pronto, e se preparando para sair. Carlos já está com suas armas prontas, e observando o movimento na rua, ou nesse caso, a falta de movimento na rua. Mariana se junta á Carlos.
- como está o movimento? – pergunta ela.
- está em falta – responde ele ao olhar para ela – belas roupas.
- valeu – fala ela.
- ei Carlo, dá uma ajuda aqui – fala Felipe de dentro da casa.
- volto já – fala ele enquanto começa a andar em direção á Felipe.
- não demora muito... Temos que sair cedo daqui – fala ela.
Ítalo, Gabriel e Lucas estão conferindo as últimas notícias na televisão:
- aos sobreviventes que ainda estão presos nas cidades atingidas pela praga, estaremos exibindo uma lista de lugares de evacuação – fala o âncora do jornal – sigam para o centro de evacuação de sua devida cidade.
Uma lista contendo alguns lugares em algumas cidades é exibida, e como visto na internet, o centro de evacuação de Fortaleza é no Porto do Pecém.
- lembrando; as evacuações ocorrerão no mesmo dia e no mesmo horário; em 2 dias e exatamente ás 12h00min – fala o âncora.
Gabriel desliga a televisão, e os 3 juntam-se ao grupo, que está reunido no portão da casa. Carlos, Mariana, Felipe e Medeiros estão á frente, abrindo os portões e guiando o grupo pelas ruas, que fedem demasiadamente devido aos vários cadáveres apodrecendo. Enquanto andam pela rua, Saul vai até Carlos e Mariana.
- então, o Gabriel falou que temos 2 dias de espera ainda – fala Saul.
- 2 dias? Puta que pariu... Vamos ter que nos segurar lá durante 2 dias, mas que merda – fala Carlos.
- podia ser pior – fala Mariana.
Quando Mariana termina de falar, enquanto estão num cruzamento, um caminhão tanque vem muito rápido na direção deles.
- cuidado! – grita Carlos enquanto puxa Mariana e Saul para frente.
O resto do grupo volta, e o caminhão passa direto e bate num poste, que cai em cima do tanque, que vaza gasolina pelo asfalto; o motor do caminhão começa a pegar fogo, e a gasolina entra em contado com o fogo, causando uma grande explosão. Felizmente, tanto o trio quanto o grupo já estão bem afastados, e infelizmente, o grupo está dividido. Carlos fica próximo aos escombros, falando com os demais.
- estão todos bem? – pergunta Carlos.
- sim, e vocês? – pergunta Medeiros.
- de boa, sigam para o porto, a gente se encontra lá – fala Carlos.
- não era melhor a gente se encontrar num lugar mais próximo não? – pergunta Medeiros.
- a explosão atraiu zumbis, eles vão nos seguir, então é melhor que seja num lugar bem longe daqui – fala Carlos.
- você é que manda – fala Medeiros.
- fica de olho no celular, vamos nos comunicar por ele – fala Carlos – agora vão.
O grupo maior começa a andar em outra direção, o trio mantém o caminho pelo qual estava seguindo. Algumas horas depois, o grupo grande chega á uma delegacia, aparentemente vazia.
- pessoal atenção – fala Gabriel num tom de sussurro enquanto as pessoas se aproximam dele – eu e o Lucas vamos verificar, e se der certo, passaremos a noite aqui.
- e se não der? – pergunta Alice.
- então vamos achar outro lugar, ok? – fala Gabriel – Lucas, vamos.
Gabriel e Lucas entram na delegacia enquanto os demais se escondem dentro de carros. Gabriel segue na frente, pronto para acertar uma flechada em quem aparecer na frente, Lucas vem logo atrás, preparado para usar sua arma de paintball. Gabriel e Lucas verificam cada centímetro da delegacia, sem sinal de zumbis, nem de policiais ou prisioneiros, tudo limpo. Lucas vai até a porta e chama os demais fazendo gestos com as mãos, o grupo entra na delegacia, e se trancam no lugar. O grupo encontra armas e munições, as armas mais comuns são pistolas 9 mm e escopetas calibre 12. O grupo grande está seguro, já o trio não; Carlos, Mariana e Saul estão andando pelas ruas aparentemente desertas.
- cara, preciso mijar – fala Saul.
- tem um restaurante ali – fala Mariana apontando para um restaurante do outro lado da rua.
O trio entra no restaurante. Somente Saul vai ao interior do lugar, Carlos e Mariana ficam na porta, esperando.
- já tá meio tarde – fala Mariana – temos que achar um lugar pra passar a noite.
- minha casa fica aqui perto, são só algumas ruas – fala Carlos – a gente chega lá antes de escurecer.
- isso é bom – fala Mariana.
- tá mais calma agora? – pergunta Carlos.
Assim que Carlos termina de falar, Saul grita. Tanto Carlos quanto Mariana, ambos correm em direção ao banheiro, e quando entram, veem um zumbi morder Saul no ombro direito. Mariana saca um dos facões e o arremessa na cabeça do zumbi, matando-o. Carlos se aproxima de Saul.
- puta que pariu, ele te pegou de jeito hein? – fala Carlos – como que você deu um vacilo desses?
- eu nem ouvi o filho da puta chegando, quando senti a mordida foi que eu percebi – fala Saul.
- merda – fala Mariana – Carlos, você sabe o que temos que fazer.
- não! – fala Carlos – você não vai matar ele.
- Carlo, ela tá certa, acaba logo com isso – fala Saul – eu não quero virar um filho da puta que nem esse veado. Além do que, eu faria o mesmo por você.   
Uma pequena lágrima desce pelo olho direito de Carlos, ele respira fundo.
- tá certo, mas eu farei isso – fala Carlos - e do meu jeito.
Os 3 saem do restaurante e tornam a andar pelas ruas. Saul cobre o ferimento com uma parte de seu casaco. Alguns minutos depois, eles chegam á casa de Carlos, um lugar grande com enormes muros brancos. Os 3 ficam próximos ao portão.
- certo, o portão tá fechado, quer dizer que não tem muitos deles dentro do terreno – fala Mariana – você tem a chave?
Carlos fica estático, olhando para o vazio.
- Carlos! – fala Mariana.
Carlos desperta e olha para ela.
- o que? – pergunta ele.
- você tem a chave do portão? – pergunta ela.
- não, você vai ter que pular o muro e abrir por dentro – fala ele – vem, eu te dou pézim.    
Carlos ajuda Mariana a pular o muro, que tem 3,5 metros de altura. Ela entra no terreno, dá uma rápida olhada, não vê um único zumbi ou ser vivo, então ela abre o portão, Carlos e Saul entram, e assim que eles passam pelo portão, ela o fecha novamente. Carlos os guia para a casa de sua avó, que fica no segundo andar do enorme duplex, bem em frente á garagem com 6 caminhões parados. Eles ficam na sala da televisão.
- Mariana, fique aqui, de olho nas portas e janelas – fala Carlos enquanto anda em direção á cozinha.
- aonde você vai? – pergunta ela.
- pegar a arma – responde Carlos.
Carlos vai até a cozinha, desce as escadas que dão acesso á um pequeno quarto que por sua vez dão acesso á casa de sua bisavó e á casa de seu pai, que fica embaixo da casa de sua avó. Carlos desce os 3 degraus que dão acesso á casa de seu pai e vai até o quarto. Ele passa pela porta e vê seu um revolver calibre 38 no chão, bem próximo á porta, ele pega a arma, puxa o chão e entra no quarto, e assim que ele entra, ele vê seu pai de joelhos, chorando, coberto de sangue e com uma mordida enorme no braço esquerdo.
- pai? – fala Carlos.
Seu pai olha para ele e vai ao seu encontro. Ele abraça Carlos como nunca tinha abraçado antes, e chora inconsolavelmente. A cabeça dele está encostada na cintura de Carlos. O jovem respira fundo, encosta o cano da arma na cabeça de seu pai, e aperta o gatilho. A bala atravessa a cabeça do homem e fica presa no chão. O corpo do pai cai no chão como se fosse um saco de batatas. O tiro provocou um jato de sangue que sujara parte da calça e a bota direita de Carlos. O jovem simplesmente coloca arma na cintura e volta para a sala onde Mariana e Saul estão, e quando ele chega á sala, suas mãos tremem sem parar.
- o que foi aquele disparo? – pergunta Saul.
- uma coisa que eu tinha que fazer – responde Carlos.
Carlos se aproxima de Saul e o abraça uma última vez, então ele pega a arma, aponta para a cabeça de Saul, e puxa o cão. Sua mão direita treme, ele não consegue uma mira boa. Mariana percebe e segura na mão dele, fazendo a tremedeira parar. Ele olha para ela, ela sacode a cabeça para cima e para baixo. Ele torna a olhar para Saul, que faz o mesmo, então ele puxa o gatilho. A bala fica alojada na cabeça. Mariana verifica se Saul ainda respira; nada.
- ele tá morto-morto – fala ela.
Carlos coloca a arma na cintura e anda em direção á um quarto que fica em frente á cozinha do segundo andar. Ele pega uma coisa grande enrolada num tapete velho, pega uma caixa de papelão pequena e abre a última gaveta do guarda-roupa e tira outro revolver, menor que o que está em sua cintura e junto do revolver, uma caixa de papelão menor que a primeira. Mariana entra no quarto e pega o revolver pequeno.
- esse meu né? – pergunta ela enquanto verifica as condições da arma.
Carlos fica calado enquanto desenrola o tapete velho. Ao desenrolar o tapete, ele revela uma Ithaca m37 calibre 12, em condições de uso e em tamanho original. 
- que massa – fala ela olhando para a arma.
- o prata é teu, o preto e a Ithaca são meus – fala Carlos.
- beleza – fala ela – tem alguma coisa pra comer?
- a dispensa é do lado da geladeira – fala Carlos.
Mariana coloca o revolver na cintura e vai até a dispensa. Carlos verifica se a escopeta está limpa, e está, pois seu falecido avô era fanático por aquela arma em especial, e ele se lembra disso. O avô de Carlos morreu dois anos atrás, mas Carlos, sempre que podia, limpava as armas que seu avô tanto amava. Mariana volta para o quarto comendo um biscoito.
- então, como você se sente? – pergunta Mariana.
Carlos suspira.
- feliz pelo Saul – fala Carlos – os problemas dele acabaram, ele não tem que se preocupar com mais nada, e triste por que eu nunca mais irei vê-lo.
- vai sim – fala Mariana – vocês vão se ver no paraíso.
- eu não acredito em Deus – fala Carlos.
- por quê? – pergunta Mariana.
- não quero falar disso – responde ele – tô com fome. Vou preparar um sanduíche, e depois preparar as coisas pra amanhã.
- beleza – fala ela.
O trio se tornou uma dupla. Já o grupo maior, que se esconde na delegacia, está reunido na entrada da delegacia, após terem feito uma barricada em cada porta, eles finalmente descansam, e já está de noite. José verifica as armas que encontraram; 5 escopetas, 7 pistolas, 9 revolveres, 6 cassetetes. Medeiros conta as munições encontradas; 60 balas de escopeta, 90 balas de pistola, 54 balas de revolver e 9 pentes para munições de pistola.
- então, Gabriel, vamos continuar seguindo a pé, ou vamos pegar um carro pra ir pro porto? – pergunta Alice.
- de carro, apesar de que há um risco de chamar a atenção dos infectados que estão por perto do porto – fala Gabriel – pessoal, durmam cedo, por que amanhã a gente vai sair cedo.
O grupo dorme. Já a dupla ainda prepara seus equipamentos. Mariana prepara o jantar, enquanto que Carlos serra o cano e a coronha da Ithaca com uma serra tico-tico que era de seu primo mais velho. Mariana põe 4 sanduíches de queijo na mesa e sai da cozinha andando em direção á Carlos, que está na garagem dos caminhões serrando o cano da arma. Quando ela o vê, segue em sua direção.
- Carlo, o jantar tá pronto – fala ela.
Ele não parece escutar então ela vai até ele.
- Carlos – fala ela.
Quando ela chega a ele, o cano da escopeta cai no chão, então ele desliga a serra e pega a escopeta.
- lol, não sabia que você entendia dessas coisas – fala ela.
- é, bom, desde que eu era um pirralho fedido, meu avô sempre me ensinou coisas sobre armas, facas e ferramentas – fala ele – vovô sempre me disse: “respeite as ferramentas com as quais você trabalha, seja uma chave inglesa ou um rifle automático d assalto calibre 7,62”.
- seu avô parece ser um homem sábio – fala ela.
- hum... Meu avô era um perfeito canalha bêbado – fala ele - mas com certeza entendia de armas.
- vamos jantar? – fala ela.
- vamos – fala ele.
Os 2 seguem para a cozinha. Durante o jantar, Carlos puxa um celular do bolso, não é o de Mariana, e começa a escutar música.
- você parece quase feliz – fala ela.
- eu deveria estar triste pelo Saul? Sim, com certeza – fala ele – mas isso seria egoísmo de minha parte, além do que, eu tenho maiores problemas e maiores preocupações no momento.
- você é a primeira pessoa que pensa assim – fala ela.
- eu só penso que ficar triste por uma pessoa que já morreu é besteira, quer dizer, você, eu vamos morrer um dia, assim como todo e qualquer ser vivo do planeta – fala ele – então por que ficar triste quando esse fato natural da vida acontece com as pessoas? Quer dizer, é que nem defecar; todo mundo defeca, é natural, assim como todo mundo morre.
- e o cara era teu amigo né? – fala ela.
Carlos sorri.
- durma cedo, vamos sair cedo amanhã – fala Carlos enquanto se levanta da cadeira e segue para o quarto de sua avó.
A dupla dorme separada. Nam manhã seguinte, o grupo de Gabriel acorda ás 06h00min, junta o material, pega um ônibus e segue para o porto, Gabriel dirige durante o percurso.
- será que o Carlos, a Mariana e o Saul tão vivos? – pergunta Medeiros.
- sei lá, liga pra eles – fala Gabriel.
Medeiros pega o celular de Gabriel e liga para Mariana. O celular começa a tocar, acordando Mariana.
- alô – fala ela, acabando de acordar.
- que bom que estão vivos! – fala Medeiros.
- bom, nem todos – fala Mariana – o Saul morreu.
- puta que pariu – fala Medeiros – foi rápido pelo menos?
- foi – fala ela.
- certo, estamos indo pro porto, encontramos vocês lá, ok? – fala Medeiros.
- ok – fala ela.
Medeiros desliga o telefone. Mariana se levanta da cama e olha pela janela; ela vê Carlos cavando um buraco perto da garagem, ao lado de 2 corpos. Ela vai até ele.
- bom dia – fala ela.
- bom dia – fala ele.
- vai enterrar o Saul? – pergunta ela.
- não, meu pai – fala ele – o Saul vai receber outro tratamento funerário.
Carlos aponta para um balde cheio de combustível. O buraco tem espaço suficiente para enterrar o corpo do pai, então Carlos para de cavar, põe a pá encostada no muro e empurra o corpo de seu pai para dentro do buraco. Mariana apenas observa enquanto ele enterra o corpo do pai, e molha o corpo do melhor amigo com gasolina. Ao término de molhar o corpo, ele pega uma caixa de fósforos e toca fogo no corpo.  
- por que você cremou o Saul e enterrou seu pai? – pergunta Mariana.
- por que eu respeitava o Saul e tinha pena do meu pai – fala Carlos.
- pena? – pergunta Mariana.
- é – responde Carlos – ter pena de uma pessoa é o atestado de que você acha aquela pessoa uma perfeita irresponsável... E era isso que eu sentia pelo meu pai.
Um telefone começa a tocar; Carlos enfia a mão no bolso, tira o celular de seu falecido pai, e atende.
- alô – fala Carlos.
- bora Carlo! – fala a voz vinda do outro telefone – como é que tu tá, véi?
- quem é? – pergunta Carlos.
- pô cara, valeu por reconhecer – fala a voz.
- fala logo quem é; porra – fala Carlos.
- aqui é o Eduardo, veado, teu amigo de infância – fala a voz.
- ah... Edu – fala Carlos – como é que tu tá, brô?
- de boa, dadas às circunstâncias né? – fala Edu – e tu? Como é que tá teu velho?
- meu velho morreu, e eu tô saindo fora da cidade – fala Carlos -  e tu?
- cara, eu e meus camaradas pensamos nisso, mas vamos precisar de reforço casca grossa, tá ligado? – fala Edu – o que tu acha? Quer se juntar á nós?
- cara, eu tenho um grupo de unas 14 pessoas, mas tô meio separado deles, por que tu não se junta á nós? – fala Carlos.
- depende, quem é o líder do grupo? – pergunta Edu.
- tá falando com ele – fala Carlos.
- ah garoto! – fala Edu – formou! Onde que tu tá agora?
- em casa, mas já tô de saída – fala Carlos – tô indo por porto do Pecém.
- ah, tá ligado nos jornais né safado? – fala Edu – beleza, tu ainda lembra do estúdio do Russo? Sabe, aquele que eu tentei te ensinar a tocar?
- tô ligado, sei onde é – fala Carlos – a gente vai se encontrar lá?
- bom, eu já tô aqui, tô esperando – fala Edu.
- beleza, tô indo – fala Carlos.
- não demora – fala Edu.
Edu desliga o celular. Carlos guarda o celular no bolso.
- o que foi isso? – fala Mariana.
- um camarada meu tá vivo, e com um grupo de sobreviventes – fala Carlos - a gente vai se reunir num estúdio aqui perto.
- ele é confiável? Sabe lutar? – fala Mariana.
- sim, é confiável – fala Carlos – e sim, ele sabe lutar. Tu vai merendar e eu vou buscar o material.
- tu não vai merendar? – pergunta Mariana.
- já merendei, e já preparei a tua – fala Carlos - tá em cima da mesa, perto do café.
- você fez a merenda? – pergunta ela.
- bom, eu tava desocupado, não consegui dormir mais do que 6 horas e ficava pensando no que houve ontem, aí eu tomei 3 latas de nightpower e aqui estou – fala ele.      
- ok, você tá bem ligado, né? – fala ela – tô indo merendar.
O grupo de Gabriel chega ao porto. O ronco do motor do ônibus cessa. Todos focam seus olhares na estrutura de concreto posta na frente do ônibus. O lugar está em perfeitas condições, aparentemente. Gabriel estrala os dedos, chamando a atenção do grupo, e aponta para Medeiros e Lucas, e aponta para os portões do porto. Os 2 descem do ônibus e seguem até o portão do porto; o lugar está intacto, nenhum sinal de mortos vivos nem de refugiados. Lucas faz sinal, Gabriel liga o motor do ônibus, e dirige até a entrada do complexo, onde ficam os escritórios e salas de reunião. Gabriel desce do ônibus, seguido pelo resto do grupo, menos por Fernanda, que permanece dentro do ônibus, e ninguém percebe que ela ficou para trás. Medeiros e Lucas se reúnem com o grupo. Todos deixam suas mochilas dentro do ônibus, só carregam armas. Carlos e Mariana pegam suas mochilas e seguem para o estúdio, onde se reunirão com Edu e seu grupo. São exatamente 12h02min quando Carlos e Mariana chegam ao estúdio. Ao passarem pela porta de vidro, os 2 veem um sujeito de aparentes 1,80 metros vestindo um macacão da aeronáutica, usando luvas pretas, coturnos, casaco preto e sentado na cadeira do recepcionista, com as pernas esticadas e em cima da mesa, escutando músicas no celular e comendo uma maçã. Carlos para e fica frente á frente com o sujeito. Mariana fica parada ao lado de Carlos.
- você demorou – fala o sujeito.
- se eu tivesse vindo de carro teria sido pior – fala Carlos.
- eu sei, teria chamado a atenção dos veados que estão por aí sem nada pra fazer, tô ligado – fala o sujeito enquanto se levanta da cadeira e vai até Carlos – bom te ver brô.
Edu e Carlos se abraçam.
- você não mudou nada hein? – fala Carlos - o mesmo folgado de sempre.
- é como dizem: pau que nasce torto nunca se endireita – fala Edu.
- á propósito, Edu, essa é a Mariana, e vice versa – fala Carlos.
- e aee – fala Edu estendendo a mão para Mariana.
- oi – fala Mariana apertando a mão de Edu.
- então, cadê teu grupo? – fala Carlos.
- tão esperando a gente com a Cristine – fala Edu.
- lol, teu pai te deixou andar com a Cristine? – pergunta Carlos, surpreso.
- claro que não, mas vendo talvez ela nunca mais tenha a oportunidade de dar uma volta então, eu a trouxe – fala Edu.
- lol, vamos logo – fala Carlos – quero cumprimentar a dama.
- sabia... Vamos – fala Edu começando a andar em direção á porta que está atrás de Carlos e de Mariana – a dama tá na outra rua, só esperando a gente.
Os 3 andam até a outra rua, e veem Cristine, parada, só esperando.
- Cristine, meu amor, você tá do jeitinho que a gente te deixou á 3 anos atrás – fala Carlos.
Enquanto que Carlos e os demais partem em direção ao porto, Gabriel e seu grupo já estão vasculhando o lugar. Eles andam agrupados, bem próximos uns dos outros. Eles chegam ao pátio de cargas, e andam por entre as grandes caixas de metal espalhadas pelo lugar. José se aproxima de Gabriel.
- cara, tô com um mau pressentimento – fala José num tom de sussurro.
- besteira – fala Gabriel – o lugar tá intocado. Já encontramos algum inimigo? Não, então relaxa.
Assim que Gabriel termina de falar, uma das enormes caixas de metal se abre, e de dentro saem vários zumbis, que ao fazerem barulho, alertam os outros vários espalhados no outro lado do pátio. O grupo de Gabriel fica cercado.
- subam nas caixas! – grita Marcelo enquanto sobe rapidamente numa das caixas metálicas.
Marcelo fica deitado sobre a gigantesca caixa metálica e ajuda os demais a subirem, mas quando Lucas, o último a subir, agarra a mão de Marcelo, um zumbi o agarra e o morde no pescoço. Outros zumbis agarram Lucas, Marcelo é obrigado a largar a mão de Lucas, que vai ao chão e seu corpo é destroçado por alguns zumbis. Seus gritos ecoam pelo lugar.
- puta que pariu! – grita Gabriel.